quinta-feira, 30 de junho de 2022

a baixa porém perceptível amplitude de um oceano em calmaria

 Faz muito tempo que não escrevo para o blog. Muito mesmo. E eu achando que esse seria o ano em que as postagens mensais engatariam. Outra vez, deixei passatempos para lá, livros que poderia ler, filmes que poderia assistir, textos que poderia (e deveria) ter escrito. Os planos que tinha foram facilmente substituídos por outros que as circunstâncias me impuseram. Na verdade, foram muito poucas as coisas que eu supunha sobre este ano que se tornaram realidade. A minha vida mudou tanto em tão pouco tempo que ainda estou processando o impacto do soco, o rosto começou a ficar dormente só agora. O jeito é esperar que o hematoma não seja muito grande.

Lembro-me de que o último texto teve muito a ver com o tema de identidade, e não me sinto particularmente feliz em informar que pouco progresso aconteceu de lá para cá. Ou, se houve, ainda não consta no sistema. Recentemente comecei a trabalhar em um banco, então as analogias estão calibradas conforme o mundo burocrático de procedimentos administrativos e contratos de entrelinhas intermináveis. Tentarei, porém, manter um grau aceitável de poesia na prosa; não quero que minhas frases fiquem tão inertes quanto os computadores quase inoperantes da minha agência. Eu sou um escritor tão bom quanto minha organização mental me permite ser; por isso mesmo é que já me desculpo de antemão pelas palavras despejadas ao acaso nisso que quero considerar um retorno.


domingo, 2 de janeiro de 2022

as mãos que seguram a fotografia

Ainda é o segundo dia do ano e já me vejo a redigir um novo conteúdo para o blog, para a minha companhia inseparável, que por tantas aventuras e por tantos desastres me acompanhou. Ainda que eu não saiba exatamente quando vá finalizar ou publicar este texto, parece que eu vim cedo desta vez. É relativo. Para quem está habituado em produzir lá para os dias vinte e tantos do mês, escrever ainda na primeira semana pode soar como maior comprometimento; ou, como outros podem notar, como a compensação da falta de material no mês anterior. O copo d'água está meio cheio, ou meio vazio, o excesso ou a falta estão nos olhos e não na realidade. Eu acredito que já está na hora de eu encher o resto do meu copo — ou beber o que há nele de vez.

Como escritor, eu frequentemente me encontro em situações contraditórias — meu senso de humor as consideraria engraçadas também. Parte do modo como enxergo a vida, e já mencionei isso algumas vezes por aqui, é crer que a partícula fundamental da felicidade são os momentos. Estou convicto de que são eles que constroem, pedacinho a pedacinho, a imagem final e completa de nossa memória, o retrato analógico e penosamente revelado do que foi nossa vida. Das mais variadas durações e de diversos graus de importância, os momentos a que me refiro são os intervalos de tempo dos quais nunca nos esquecemos, seja pela boa sensação que nos afaga a cabeça ou pelas lágrimas que cicatrizaram sobre nossas bochechas. Esses instantes que o tempo não apaga, que a rotina não empalidece, que os anos não devoram — são esses que nos definem, que moldam o modo como se enxerga e como se sente o mundo e as pessoas. Já faz alguns anos que sou um fiel adepto dessa ideia, e é aí onde está a ironia. Dia sim, dia não, eu recolho minhas memórias em uma escrivaninha imaginária e as fico admirando. Nessas horas, é inevitável questionar: que farei com elas?

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Pós-créditos #5 — Duna

Tem muito tempo que não escrevo uma resenha. Na verdade, tem muito tempo que não escrevo nada de modo geral, nem na literatura nem no blog. Sei que o hiato foi longo, e desde já me desculpo, embora eu não tenha a intenção de explicá-lo aqui e agora. Esta pequena introdução é só para dizer que, por esse motivo, talvez esta crítica não se compare às demais que já fiz, e talvez nem faça justiça ao filme da vez. Mas gostei demais dele para não escrever nada aqui, então sejam bem-vindos a mais uma publicação da série Pós-créditos!

Duna


Ficha técnica

Ano: 2021
Gênero: ficção científica
Direção: Dennis Villeneuve
Duração: 155 min (2h35)

Sinopse

Paul Atreides, um jovem brilhante e talentoso nascido com um destino além de sua compreensão, deve viajar para o planeta mais perigoso do universo para assegurar o futuro de sua família e de seu povo. Enquanto forças malévolas entram em conflito pelo monopólio do recurso mais precioso existente — uma especiaria capaz de desbloquear o maior potencial da humanidade —, apenas os capazes de conquistarem seus medos sobreviverão. Baseado no livro homônimo de Frank Herbert [Sinopse traduzida do site Letterboxd].

terça-feira, 15 de junho de 2021

O fim inacabado de uma vida interminável

 Pare o que está fazendo agora. Esqueça-se dos planos que tinha para hoje à noite, e venha até mim escrever o que sente. Faça a única coisa que realmente sabe fazer, e coloque-se numa vitrine repleta de frases soltas, textos soltos, pedaços desconexos, jamais finalizados. Observe os livros de sua estante, todos com marca-páginas em posições mais ou menos intermediárias, todos eles. Note as folhas de sulfite da gaveta, um amontoado carente de conclusões. Os arquivos pela metade, as ideias nunca polidas, as sentenças sem ponto final. O oceano sem fim de fins inalcançados. Vê um padrão na incompletude de sua vida?

segunda-feira, 31 de maio de 2021

A solidão partilhada de Death Stranding

 Eu escrevi aqui pela última vez há mais ou menos um mês e meio, mas parece que foi há tanto tempo... Muito me aconteceu desde então. Depois de quase quatro anos, voltei a ter episódios de bastante ansiedade, e fazer coisas simples que não me eram nenhum esforço agora pareciam tarefas bem árduas. Pouco consegui fazer de minhas semanas, senti-me tão sozinho quanto há três anos, alguns meses antes de começar este próprio blog. Uma das poucas coisas que ainda me divertia eram os jogos, e eu estava para jogar um que tinha dividido com meu amigo Murilo uns meses atrás. Foi o que fiz. Devo dizer, depois de setenta horas jogadas, que Death Stranding foi um dos melhores jogos que joguei nos últimos tempos, não apenas pelo jogo em si, mas também por ter me servido como maior companhia nessa época de incertezas, medos e solidão por que passo. Justamente por isso, apesar de o jogo ser muito bom em vários aspectos, eu decidi focar nos principais que me cativaram: a narrativa solitária e a ambientação melancólica (mas não tanto assim). Já aviso, como o jogo é de 2019 e eu quero muito falar em detalhes, tem spoiler por toda a parte.

sábado, 17 de abril de 2021

Posfácio #6 — Metodologia de Pesquisa para Ciência da Computação

O livro da vez é um pouco diferente dos que eu costumo resenhar aqui, mas, como o blog também se trata de computação, e como foi uma experiência incomum para mim lê-lo, acho que vale a pena trazê-lo para cá. A propósito, é possível que mais desse gênero façam uma aparição, eu estou numa fase mais "estudantil" de leituras, digamos assim.


Metodologia de Pesquisa para Ciência da Computação




Autor: Raul Sidnei Wazlawick
Ano: 2009
Gênero: Pedagogia

Sinopse:

A presente obra condensa mais de 16 anos de experiência na orientação de trabalhos de graduação, especialização, mestrado e doutorado. O livro apresenta o tema “metodologia da pesquisa” de forma agradável, fundamentada e baseando-se sempre em histórias ilustrativas sobre como fazer e também como não fazer um trabalho terminal de curso de computação. A ênfase principal do livro está na caracterização do trabalho científico em ciência da computação, visto que a experiência do autor em bancas examinadoras e na avaliação de artigos científicos demonstra a dificuldade que muitos alunos de computação têm em compreender e aplicar a metodologia científica a seus trabalhos. [Retirada da página do livro na Amazon]