segunda-feira, 9 de março de 2026

Recomendações musicais do Dia Internacional da Mulher

Acho que a esta altura do campeonato, não é mais necessário dizer que os hiatos entre publicações são frequentes. Não está sendo fácil conciliar uma criatividade multifacetada, que passeia entre literatura, música, jogos, etc.,  com uma cabeça em constante bagunça, e com o expediente exaustivo e massacrante de bancário (sério, às vezes sobreviver à agência na qual trabalho é uma tarefa hercúlea, e definitivamente pode ter causado algumas sequelas). Mas não pensem que esqueci do meu cantinho na internet. Muito pelo contrário, agora que mais um ciclo da minha vida está para se fechar (do qual falarei em breve), será a hora de reorganizar a agenda para alocar uma porção mais generosa do meu tempo para um hobby que há muito deixei de nutrir como deveria: a escrita. Tudo em seu tempo, porém. Uma publicação de cada vez. Seja como for, decidi vir aqui hoje pela ocasião da data.

Primeiramente, desejo a todas as leitoras do blog um feliz Dia da Mulher! Espero que vocês passem a data com quem amam e que sejam valorizadas como devem ser. No dia de hoje (e continuando um pouco o espírito da publicação anterior), pensei em trazer aqui algumas mulheres do mundo da música cujo trabalho me cativa. Como serão várias, não vou fazer uma análise tão meticulosa como eu gostaria para manter a brevidade, mas caso vocês se interessem por esse tipo de post, pode ser um assunto interessante no futuro! Também gostaria de enfatizar que, embora não sejam, talvez, artistas de renome mundial ou ícones de seus gêneros, são pessoas que eu acompanho e gosto do som, que foram importantes para mim em alguma medida: uma música, um EP, ou um álbum que me marcou de alguma forma. No final do texto, vou deixar também outros nomes para quem quiser um pouco mais de referências, mas quero dar enfoque naquelas que eu conheço. Então, sem mais delongas, vamos lá!

Andrea Parker – Here's One I Made Earlier... (2007)



Eu me deparei com esse álbum muito tempo atrás, ainda quando eu estava fazendo o curso de discotecagem, no final de 2024. Fez parte da primeira "leva" da minha pesquisa musical no mundo da música eletrônica. Eu realmente não lembro como cheguei até ele, possivelmente tenha sido o algoritmo do Spotify, vendo que eu curto uma música mais experimental. Até onde pude ver, Andrea Parker não é tão conhecida assim, mas li na sua biografia que ela é "classicamente treinada", como dizem: isto é, ela teve uma formação clássica no mundo da música, no seu caso como violoncelista. Isso não é incomum na música eletrônica, ainda mais quando estamos falando de artistas que residem nas "adjacências" do que geralmente se espera do arquétipo de seus gêneros. E no quesito experimentação, ela não deixa a desejar: Here's One I Made Earlier tem 78 minutos de um techno/electro recheado de atmosferas amiúde sombrias, mas sempre curiosas. Parece que a mentalidade das composições é "encontrei um som interessante, como posso incorporar isso na música?". Braindance, alguns diriam! Não sei se foi o caso, mas ouvir esse álbum me soa como se ela estivesse improvisando em tempo real num sintetizador modular, nos chamando para entrar numa aventura na qual é impossível prever o que poderá vir a seguir. E eu não recuso convites como esse.

Gêneros: Abstrato, Electro, Experimental;
Faixa favorita: "Unconnected Edit";
Links para streaming/compra: Spotify, Bandcamp (inclusive versão física!), YouTube.

Anna – Introspection (2025)


Acho que deve ter sido até mesmo antes do meu curso de DJ que eu me deparei com a conta de Anna no Instagram. Apareceu pra mim na parte de sugestões e eu decidi seguir por alguns motivos: na época, o nome de usuário dela era parecido com o de Aphex (o que achei curioso); ela tinha uma página no Bandcamp e eu já estava querendo conhecer novos artistas naquela época; e o mais engraçado de tudo é que ela parece muito uma prima minha, ou pelo menos foi a impressão que eu tive logo quando vi a conta. De lá pra cá, eu acompanho as publicações dela por lá e a vejo experimentando diferentes formas de produzir música: só lembrando de cabeça agora, posso citar o VCV Rack, strudel e acho que Pure Data também. É uma artista venezuelana de muita criatividade e genuína curiosidade pelo processo de criação musical, em particular de música eletrônica e ambiente. Também é DJ e gosta de colecionar vinis (desnecessário dizer, mas também tem vários de Aphex, então só isso já seria suficiente para eu querer ver um pouco mais do seu trabalho). Seu primeiro lançamento foi o single "21kHz", faixa de techno/breakbeat (aos meus ouvidos, pelo menos) que foi lançada em janeiro de 2025 com efeitos visuais – ou como chamamos, um visualizer – disponível no YouTube e no Bandcamp. Mas eu escolhi trazer o álbum Introspection por ser uma obra completa.

Lançado em outubro do mesmo ano e diferentemente de 21kHz, Introspection é um álbum de música ambiente que usa amplamente gravações de campo (field recordings), ou seja, sons que não vêm de instrumentos, mas sim da natureza e da paisagem: chuva, vento, água corrente, vozes de pessoas falando, etc. Esses sons então são manipulados durante a produção musical para adicionar uma camada a mais de imersão nas músicas, que geralmente se resumem a simples temas melódicos ou a progressões harmônicas que se repetem, com variações orgânicas sendo o ponto de interesse. Outras vezes, pode ser que o foco seja um sample de algum objeto, e os elementos musicais aparecem de forma mais sutil, "envolvendo" aquilo que, se ouvido fora de contexto, seria somente um barulho qualquer em um invólucro atmosférico de mistério musical, como é o caso da faixa "Cryoether". É possível ouvir a influência de Selected Ambient Works Vol. II de Aphex Twin nesse álbum, mas ele é original em seu próprio mérito, em suas próprias ideias. De todos os trabalhos que decidi trazer hoje, esse é sem dúvida o que mais me dá inspiração para criar música. Não sei explicar direito, mas a sensibilidade que ouço nas frequências de Introspection é a mesma que sinto no coração.
Você pode acompanhar o trabalho de Anna pelo Instagram @discgirl_ ou pelo Bandcamp, na lista de links abaixo.

Gêneros: ambiente, ambiente eletrônico, noise;
Faixa favorita: "Annalog" (indiscutivelmente a que eu mais gostei);
Links para streaming/compra: Bandcamp (apenas versão digital).



KAVARI – PLAGUE MUSIC (2026)




Lá estava eu no Victoria Park, em agosto de 2023, ouvindo o set extraterrestre e inesquecível de Aphex Twin, quando de repente começo a ouvir uma barulheira sem tamanho, fundida com breaks de jungle e DnB. Um som que eu nunca tinha ouvido antes, mas que, de alguma forma, funcionava. Um caos catártico de gritos metálicos e baixas frequências completamente clipadas até o talo (uma distorção intencional, é claro). Mais tarde, conversando com amigos que também estavam lá, eu descobri que aquele trecho era "Attachment Style (VIP)", uma faixa de KAVARI – artista da Escócia cujo foco é justamente essa sonoridade crua, cruel, impiedosa. Anos depois, enquanto eu preparava a minha seleção para o evento da Escarcéu em janeiro, vi que ela estava com o EP PLAGUE MUSIC programado para lançar em breve, e com uma das faixas já disponível para ouvir. Por muito pouco eu não coloquei no set... mas essa hora virá em breve! Lançado oficialmente em 6 de fevereiro, esse EP é uma prova de que nunca se pode ser "barulhento demais": KAVARI orquestra o seu caminho em meio ao caos sonoro com maestria, usando breaks, samples, e o grave distorcido que mencionei anteriormente em quatro faixas absurdamente incríveis, que não te dão tempo de respirar e se recompor para a próxima lapada. Pode não ser pra todo mundo, concordo, mas aqueles que curtem esse tipo de música devem ouvir imediatamente o trabalho dela.

Gêneros: noise, hard dance, alternative;
Faixa favorita: "IRON VEINS" (que ficou disponível antes de o EP ser lançado);
Links para streaming/compra: Spotify, Tidal, Bandcamp (inclusive versão física!), YouTube.

Lena Raine – Celeste (Original Soundtrack) (2018)



Não deve ser surpresa para os leitores que acompanham o blog que videogames são uma parte importantíssima da minha vida. Os jogos que impactaram minha vida de diversas maneiras foram vários, nas mais variadas fases (pun intended) da minha infância e adolescência, e principalmente na vida adulta, eu diria. E foi justamente na fronteira entre essas duas últimas etapas que eu encontrei Celeste. Já tendo me despedido dos meus dezenove anos e vivenciando os vinte num mundo que se viu totalmente isolado pela pandemia, em 2020, esse foi um companheiro por dezenas de horas. Celeste é um jogo de plataforma sobre escalar uma montanha e tem uma história simplesmente incrível que atravessa o psicológico de sua protagonista. Dei esse breve resumo para introduzir a artista genial por trás da trilha sonora dessa obra-prima: Lena Raine. As vinte e uma faixas do álbum são, também, uma escalada numa montanha de sentimentos e imagens, exteriores e interiores. Eu sou particularmente aficionado por trilhas sonoras porque gosto de ver como os compositores incorporam os elementos visuais (e de gameplay, neste caso) em seu trabalho, e devo dizer que essa é uma das melhores trilhas sonoras de jogos indie que já ouvi. E também não é por acaso: Raine também fez músicas para updates mais recentes de Minecraft (as originais são do C418) e Deltarune – continuação de Undertale –, além de ter suas composições originais que não são vinculadas a outras mídias.
Para Celeste, ela combina gentis melodias de piano com sintetizadores que preenchem o panorama sonoro com os temas dos personagens e/ou cenários. Aqui temos momentos de calmaria e tensão, felicidade e melancolia, que culminam, finalmente, no medley "Reach For The Summit", de pouco mais de onze minutos de duração. Por mais difícil que possa parecer o jogo, e ainda que você não queira jogá-lo, eu acho que ouvir a trilha vale muito a pena, em especial se você já é do mundo dos jogos.

Gêneros: trilha sonora, ambiente, breakbeat;
Faixa favorita: "Quiet and Falling" (foi difícil escolher essa...);
Links para streaming/compra: Spotify, Tidal, Bandcamp (inclusive versão física!), YouTube.

Mecha Breaks – In Between EP (2025)


Mecha Breaks é outra artista que acompanho no Instagram já há algum tempo. DJ e produtora de Paris, lançou uma série de singles no ano de 2025, culminando nos EPs "Bloom" e "In Between", lançados em outubro e novembro, respectivamente. Para a minha recomendação, escolhi esse último porque, apesar de só ter duas faixas, acho que elas encapsulam bem a identidade sonora de Mecha. De um lado, temos "Sunken", uma mescla de ambiência e breaks de bateria que parece te colocar no fundo do oceano em suaves 80 bpm. Logo em seguida, parece que viajamos até o outro lado do espectro, com graves frenéticos a 160 bpm, mas ainda mantendo a atmosfera oceânica e viajante, com uma abundância de efeitos sonoros aqui e ali que decoram a faixa em toda sua extensão. Parece até que elas foram feitas uma para a outra, e não por acaso estão juntas no mesmo EP.
Tanto na produção quanto na discotecagem, o foco de Mecha é a fusão entre breakbeat e techno, com seus elementos percussivos e graves distintos. Ela também experimenta com a síntese modular e frequentemente publica o seu processo criativo em suas redes sociais. Eu tenho certeza de que este ano será marcado por mais adições a sua discografia: agora em fevereiro, ela lançou o EP "MECHA", com quatro faixas e também na zona do breakbeat. Com passagens por eventos na Alemanha, Suíça, e na própria França, ela tem marcado a cena underground com sua refinada seleção. Vale muito a pena ouvir o seu trabalho!

Gêneros: breakbeat, ambiente
Faixa favorita: "Sunken"
Links para streaming/compra: Bandcamp, Soundcloud.


Nala Sinephro –  Space 1.8 (2021)


Está aí mais uma artista da primeira pesquisa, lá em 2024. Eu nem sabia ainda o que eu gostava exatamente na música eletrônica, mas a influência de Aphex me levou a fuçar os artistas da Warp Records, a gravadora com a qual ele lançou a maioria de seus álbuns. Entre tantos nomes que hoje já conheço e aprecio - como Autechre, Squarepusher e Seefeel -, encontrei o de Nala Sinephro e seu álbum "Space 1.8". Possivelmente essa é a recomendação mais "diferente" dessa pequena lista, muito embora eu tenha tentado ser o mais eclético possível, dentro dos meus gostos pessoais. Como o título sugere, as oito faixas combinam música ambiente com jazz e elementos eletrônicos, e é uma deliciosa sinergia a que existe entre essas duas vertentes! Esse álbum consegue agradar tanto o meu lado reflexivo, com as suas passagens ambientes, quanto a minha veia "progressiva" que vem lá da minha adolescência escutando Pink Floyd, com solos de saxofone que beiram a psicodelia. É uma jornada pelos muitos caminhos nos quais o jazz e a música eletrônica podem se encontrar, que termina com uma gigante faixa de dezessete minutos. Muito boa para se ouvir sozinho, na tranquilidade da sua casa, de preferência à meia luz e com uma boa bebida ao lado. E não vou nem comentar sobre a beleza da capa, queria eu ter a versão física pra colocar na minha coleção...

Gêneros: ambiente, jazz ambiente, jazz eletrônico, jazz experimental
Faixa favorita: "Space 1" / "Space 6" (não consigo me decidir...)
Links para streaming/compra: Spotify, Tidal, Bandcamp, YouTube.

Menções honrosas

Como falei no início, essas são algumas recomendações baseadas naquilo que eu escuto e no que me cativa. É claro que existem inúmeras outras mulheres incríveis no mundo da música. No mundo da eletrônica, posso citar a icônica Bjork ou Nina Kraviz; se quisermos ir para o jazz, como fui um pouco com Nala Sinephro, temos nomes clássicos como Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Mas eu trouxe essas aqui para mostrar a vocês um pouco da minha biblioteca (ou audioteca) pessoal, músicas que eu de fato ouço e me emociono, seja de forma eufórica, divertida, ou melancólica. Nessa lista teve de tudo um pouco.

Enfim, já estamos até no dia 9 de março no momento em que eu escrevo isso, que coincidentemente é também o dia do DJ. Que poético desdobramento de eventos para fechar este texto. Aqui me despeço. um pós-Dia da Mulher e dia do DJ especialmente musicais e femininos para vocês. Procurem e apoiem artistas independentes e locais. Cada uma delas tem um sonho que exige dedicação e empenho constantes. Estar presente em suas apresentações, contratá-las e consumir suas artes é nutrir esse sonho e fazê-lo valer a pena. 

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